segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"Multiplicando Referências"

Lição escrita e Ministrada por Alexandre Vilmar nos dias 24 de fevereiro e 03 de março. Alexandre é Membro do Conselho de Ensino da ORLASG.



INTRODUÇÃO
 O capítulo 18 do livro de Êxodo retrata uma valiosa lição de administração, uma situação vivida por volta de 1.500 AC com a saída do Egito, mas que se faz tão atual, e pode ser aplicada nas mais diversas áreas de nossas vidas (profissional, eclesiástica, familiar etc).
Depois de confrontar e derrotar faraó, Moises tem mais um grande desafio pela frente: conduzir mais de 600.000 famílias (estimadas em 2000.000) de pessoas em meio ao deserto em direção a terra prometida. De acordo com a própria bíblia, Moisés contava com a ajuda de Deus que cuidava da parte logística, provisão de alimentos (Ex 16:12-16) e da água (ex 15:26), cuidava também da orientação do povo (Nm 9:17), entretanto cabia a Moisés lidar com as questões voltadas as relações humanas de um povo que contava com um histórico de 400 anos de cativeiro e que agora se encontra livre, porém no deserto, lugar desconhecido, com a expectativa de conquistarem uma nova terra, que lhes havia sido prometida, mas que não sabiam como chegar, pois não conheciam a rota, ou seja, não tinham domínio algum sobre qualquer situação. Eles estavam livres e sem direção.
Neste cenário Jetro visita Moisés com o intuito de devolver-lhe a família (esposa e filhos), e observa que Moisés estava muito ocupado, pois todo o povo vinha ter com ele para julgamento de todas as causas fossem elas grandes ou pequenas.  Moisés se mostrava extenuado com tal situação e mesmo assim não dava conta do julgamento de todas as causas. Jetro indaga a Moisés: “O que é isto que fazes ao povo? Porque te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até o por do sol?” (Êxodo 18:14), antes mesmo da resposta de Moisés, o sogro respondeu: “Não é bom o que fazes. Sem dúvida desfalecerás assim tu, como este povo que está contigo, pois isto é pesado demais para ti: tu só não o podes fazer.” (Êxodo 18:17-18).
Jetro aconselha a Moisés a ver quais deveriam ser suas reais funções (cuidar dos princípios e estatutos vindos de Deus) e como tratar as demais situações. Deveria designar pessoas retas para fazerem o julgamento segundo estes princípios. Moisés seria o “Superior Tribunal de Justiça” nas questões que os seus escolhidos não estivessem capacitados a resolver. E Jetro complementa:
“Se isto fizeres, e assim Deus to mandar, poderás então suportar; e assim também todo este povo tornará em paz a seu lugar.” (Êxodo 18:23).

O FORMATO DE LIDERANÇA DE MOISÉS  - UM MODELO CENTRALIZADOR

É fácil observar que o modelo utilizado por Moisés é um modelo de liderança centralizada, onde todas as questões são decididas por um único líder (Ex 18.13),  nenhuma outra pessoa participa ou contribui no trabalho que ele faz. O que não significa dizer que não haja gente competente, mas o problema desse líder é sua visão, que não lhe permite perceber diferentes ângulos da realidade e da necessidade em que está inserido. Ele é o centro e o único referencial de tudo o que acontece.
Neste modelo o líder apresenta algumas características:
1) Solitário – (Ex 18:14):  Não confia que alguém possa contribuir para o trabalho que faz, ele não quer correr o risco de se abrir ou repartir. Isto o distancia dos outros e o torna inacessível enquanto líder.

2) Má administração do tempo ( 18:14): A agenda está sempre lotada - “de manhã até o por do sol”. Não paramos para pensar e avaliar se o que estamos fazendo (eficiência) é o que deveria ser feito (eficácia). Ele não tem tempo para sua família, para férias, para o descanso. Não consegue tirar sequer uma soneca por que sabe que existem centenas de pessoas de forma desconfortável no calor do deserto, esperando por uma palavra sua.

3) Adota um modelo INEFICAZ de liderança - 18:14; “o povo de pé, aguardando ser recebido”. Por estar , por mais que ele faça, surgem lacunas graves. O povo não consegue ser atendido a contento simplesmente porque Moisés não tem condição física de atender todos, conversar com todos e orientar a todos. Este modelo exaure o líder, e não resolve o problema do liderado.

4) Negligencia a família – Não se consegue equilibrar a atenção necessária à família e as múltiplas solicitações que uma agenda lotada causa em nossa vida. Em geral, quando estamos trabalhando excessivamente, uma das áreas que mais enfraquece é a do relacionamento familiar.

Bases de sustentação do modelo centralizado
1) Falso conceito de espiritualidade - “o povo vem consultar a Deus por mim” (Ex 18:15). Em outras palavras Moisés pensava que apenas ele tinha a orientação de Deus para este ministério, acreditava que se ele não fizesse, ninguém mais o faria? Jetro demonstra que esta espiritualidade de Moisés era falsa. De fato Deus lhe dera as diretrizes, mas se Moisés treinasse outros homens, estes tais teriam acesso às mesmas informações que ele possuía. Ele mantinha as informações consigo, isto o fazia espiritual diante dos outros. Aliás, o problema da super espiritualidade sempre foi uma tentação para Moisés (2 Co 3.13).
“Desde quando uma úlcera hemorrágica é sinal de espiritualidade? Deus deseja que nosso estilo de vida seja mais fácil. Não é espiritual ter uma aparência esgotada, sacrificada pelo excesso de trabalho. Desde quando não ter nenhuma hora de folga e uma semana de 70 horas são marcas de eficiência?”
2) Onipotência (o poder de fazer tudo) – convencer a si mesmo que somente você pode fazer o trabalho. Este tipo de líder teme ser descartado ou perder a primazia.

VISÃO DE JETRO
Jetro percebe os erros administrativos de Moisés e questiona seu modelo. Seus conselhos são bons e Moisés resolve acatá-los.  A visão de alguém de fora pode fazer grande diferença em nossos projetos, aprendemos mais uma vez com Moisés que “ouviu atentamente” os conselhos de Jetro, refletiu e tomou a decisão acertada. Jetro abordou os pontos que necessitavam de mudanças:
1) Motivação correta – Método inadequado – muito gasto energético para um benéfico muito pequeno ou quase nenhum.  O perigo do isolamento é comum em grandes líderes.
2) Centralização de decisões – Desgaste no campo emocional / físico
- Tanto para o líder: Jetro acentua este último: “Certamente desfalecerás...” (Ex 18.18). Este texto foi escrito em hebraico e originalmente a palavra que aqui foi empregada significa: “envelhecer antes do tempo, exaurir”. Quem se acha tão espiritual ou tão onipotente que não possa delegar, morre sem deixar uma liderança preparada para a continuidade do projeto.
- Quanto para o povo:"Sem dúvida desfalecerás, tanto tu como este povo que está contigo" (Ex 18.18). O líder precisa entender que boa liderança não afeta apenas a si, mas afeta outros.  Líderes devem desejar o bem da empresa ou da instituição. Se você é líder comunitário, tal comunidade deve ser o objeto de sua preocupação, não existe ninguém que possa fazer um trabalho significativo se não deseja o bem do projeto pelo qual trabalha. Jetro mostra a Moisés que o seu projeto de liderança atrapalhava e prejudicava a vida daquele povo. Não é boa liderança aquele que prejudica quem é liderado, e Jetro demonstra o desgaste que a liderança de Moisés estava causando ao povo.
3) Não superestimar sua capacidade – é necessário avaliar sua capacidade, esta é outra exortação de Jetro. “Isto é pesado demais para ti!” (Ex 18.18). Não dá para ser eficiente quando a tua carga é maior que sua capacidade. Mesmo que sejamos competentes, dinâmicos e com grande poder de conexão, não podemos fazer mais que nossas condições físicas e emocionais permitem.
4) Entender a necessidade de aliados - “Tu só não o podes fazer” (Ex 18.18). A tarefa em equipe não é somente lógica, é também bíblica. Ao analisarmos o modelo de liderança de –
- Jesus: Investiu nos doze apóstolos e preparou estrategicamente um grupo menor. Ao enviá-los de dois em dois, no grupo dos setenta, deu instrução especifica a todos eles (Lc 10.1-24).
- Paulo: fez parceria com Barnabé e a João Marcos (At 13.13), depois, com Silas (At 13.40) e Timóteo (At 16.1-3). Por sua vez, Barnabé, que se separara de Paulo, continua seu projeto com João Marcos (At 13.39).

UM NOVO MODELO DE LIDERANÇA – LIDERANÇA DESCENTALIZADA
 Jetro propôs alguns princípios simples, mas que foram de grande importância para a liderança de Moisés:

1) Entender qual sua tarefa - “Representa o povo perante Deus, levar suas causas a Deus...”. Ex.18:19-20 Na verdade Jetro está dizendo: "  as outras tarefas, deixe que outros façam.n A tarefa não deixará de ser realizada, apenas será realizada de forma diferente, e em muitos casos, de forma muito mais dinâmica e efetiva com um leque de atuação mais amplo.
 2) Descobrir novos valores (lideres) (18.21). Deve ser uma preocupação do líder, descobrir novos valores. Tomando sempre o cuidado em selecionar as pessoas certas para os lugares certos. Não se deixando levar pela aparência, temperamento, condição cultural ou social e etc. (I Sm16.6). Jetro revela a Moises algumas características essenciais que devem ter uma liderança, ressaltando os valores morais E não intelectuais:

- Homens capazes: 18.21. O texto fala especificidade. Pessoas que demonstram ser adequadas para uma determinada tarefa, talhadas para um determinado perfil. Descobrir esta capacidade é muito importante. Jesus viu em Simão (o nome Simão significa “areia”), traços que poderiam transformá-lo em Pedro (“Petros” significa “pedra”, “rocha”). Jesus usa um trocadilho especial de palavras em Jo 1.42 quando diz: Tu és "Simão” e serás chamado “Pedro”.  Assim ele transforma ou descobre homens com abertura para serem transformados e investe neles. Potencialmente eram homens “capazes”.
- Homens tementes a Deus:  Nem sempre pessoas com perfil de liderança são tementes a Deus. Muitos confiam demasiadamente em suas próprias habilidades e se esquecem que"o temor do Senhor é o Princípio da Sabedoria".
                - Homens de verdade: 18:21 – que amam a verdade e odeiam a mentira, gente que se esquiva da duplicidade, que não aceita dissimulação e cujo caráter seja totalmente confiável. Quando um líder é vítima de desconfiança, sua liderança acabou. Uma das características do líder é que seus liderados confiam nele. É imprescindível a lealdade, a abertura de coração, a confiança, a sinceridade.
                - Homens não avarentos - 18:21 – Homens não compráveis, não subornáveis, não corruptíveis. Eles julgariam as causas do povo, seriam responsáveis pela justiça (magistrados), e quando a magistratura aceita suborno, a justiça deixa de ser aplicada.
Líderes apegados a dinheiro são empecilhos para o Reino de Deus e levam a instituição ao descrédito. Não podem ser avarentos nem mesquinhos, mas devem ter relação saudável com a aplicação de si mesmo e de seus recursos.
                3)  Transfira conhecimento - “Ensina-lhes os estatutos” 18.20
O conhecimento de Moisés e as revelações de Deus deveriam agora se tornar conhecidas a um grupo maior, as leis de Deus precisavam ser analisadas para que cada situação fosse julgada de forma imparcial.
               
CONCLUSÃO
No Reino de Deus não há lugar para individualidade, a liderança não pode ser realizada de forma solitária, pois abre muitos espaços para deformações. O modelo de liderança praticado por Jesus foi de uma liderança claramente descentralizada através de seus discípulos e da própria Igreja primitiva, onde a idéia de equipe estava muito clara (At 20.17). Paulo também nos dá exemplo de liderança compartilhada em (Tt 1.5), quando orienta Tito a formar um Conselho de presbíteros em Creta, para repartir a sua liderança.
 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"A Saída"

Lição escrita pelo Pr. Júlio Oliveira e Ministrada por Mario Hermes nos dias 03 e 17 de fevereiro; ambos membros do Conselho de Ensino da ORLASG.

     Antes de deixar a presença do Faraó (11: 1-10) que estava completamente dominado pela ira, Moisés fala a respeito da última praga a mais terrível de todas. Nesta última praga Deus vai tirar a vida do filho primogênito de todas as famílias egípcias (11: 5-6). Não existe experiência mais dolorosa para um pai ou uma mãe do que a morte de um filho, mas a perda do primogênito é ainda pior, pois ele é o herdeiro sobre quem a família deposita toda a sua esperança. O primogênito de Faraó ocuparia seu lugar. Depois de cada praga, a situação sempre voltava ao normal, mas para os pais que vão sofrer essa perda a vida nunca mais será a mesma.
    
     Essa última praga pode parecer cruel, mas talvez seja castigo de Deus contra a crueldade dos egípcios na matança dos meninos hebreus (1: 15-16).
Deus avisa a Moisés que essa será a última praga e que o povo deixará o Egito em breve.

Convocados para a liberdade
     Mas, adverte de que o povo precisa se preparar para essa nova caminhada. Preparo espiritual e material. Para a provisão material, o povo deveria pedir aos vizinhos egípcios objetos de prata e de ouro (11: 2). Seu pedido será atendido, pois o Senhor influenciou a atitude dos vizinhos para com os hebreus e até Moisés era muito famoso na terra do Egito, aos olhos dos oficiais de Faraó, e aos olhos do povo (11:3).
Mas o povo de Israel só será poupado do sofrimento pela qual vão passar os egípcios se seguirem as orientações dadas por Deus e observarem uma nova festa religiosa: “A Páscoa”.
  
     A Páscoa se tornará essencial na celebração do livramento dado pelo Senhor (12: 1-28).   A instituição da Páscoa marca o início de uma serie de rituais e cerimônias religiosas a serem observados pelos israelitas. O Senhor define para Israel um novo calendário religioso que começa na primavera, no mês de adibe, o primeiro mês do ano, correspondente a março-abril em nosso calendário (12:2).

   O Senhor fornece instruções precisas a Moisés acerca dos procedimentos e do momento certo de realizá-los.  
    No décimo dia do mês, os israelitas devem escolher um cordeiro e (12:3a) e guardá-lo até o décimo quarto dia do mês, ou seja, na lua cheia (12: 6a). Deus também enfatiza a importância da comunhão na celebração. O povo deve cumprir em grupos (12: 3b) e os animais devem ser imolados por todo o ajuntamento da congregação ao mesmo tempo (12: 6b). Esse é o primeiro registro bíblico de sacrifícios oferecidos por famílias, e não indivíduos, e da participação de toda a congregação em um ritual comum. Não vemos esse tipo de prática religiosa no tempo dos patriarcas. As referências à “congregação” em 12: 3 e 12: 16 também sugerem os primeiros conceitos de povo, nação. Esse conceito chegará a seu ápice quando Deus anunciar que escolheu a nação e quando faz aliança com Israel nos capítulos 19 e 20.

As prescrições quanto ao animal e seu preparo são rígidas. As famílias podem usar um cordeiro ou um cabrito, mas ele deve ser macho de um ano de idade e ser sem defeito (12: 5). Deus exige que todos os sacrifícios oferecidos a ele sejam perfeitos e, portanto não aceita amimais defeituosos (Lv. 22: 17 – 31).

       Quando os animais forem imolados, o povo deve guardar uma parte do sangue. Mais adiante, Deus vai orientar o povo a drenar e enterrar o sangue (Lv. 10-14), mas, nesta ocasião, os israelitas deviam tomar um feixe de hissopo (provavelmente uma planta aromática), molhá-lo no sangue e passá-lo nas ombreiras e na verga da porta de suas casas (12:7).

       Nas gerações futuras, quando essa festa fosse celebrada para comemorar o que havia acontecido no Egito, ficaria conhecida como “Festa dos Pães Asmos” (asmo significa “sem fermento”; 12:17). Entre outros motivos, o pão devia ser sem fermento, pois em sua pressa de sair do Egito, os israelitas não teriam tempo de deixar a massa do pão crescer. No entanto, as instruções detalhadas acerca da preparação desse pão (chamado matzoh em hebraico) e o fato de o povo ter de comê-lo por sete dias sugere a existência de outro motivo para sua importância. Pode-se dizer o mesmo da instrução repetida: Tirareis fermento das vossas casas (12: 15,19). Ainda hoje, judeus ortodoxos fazem uma limpeza antes da Páscoa e removem todo vestígio de fermento de suas casas e locais de trabalho.

       A ênfase sobre comer pão sem fermento faz sentido quando lembramos que, naquela época, o fermento que fazia a massa crescer consistia num pedaço de massa crua de um pão preparado anteriormente. Essa massa fermentada agia como os fermentos usados em pães hoje em dia.

     No entanto, significava que o pão novo possuía resquício do pão anterior. Deus deseja que os israelitas partam para uma vida nova e rompam inteiramente com sua vida antiga como escravos do Egito, utilizando-se da metáfora do pão sem fermento.

        Logo após as instruções acerca do pão, Moisés explica o motivo pelo qual o povo deve aspergir o sangue nas ombreiras e na verga das portas: Porque o Senhor passará para ferir os egípcios, mas poupará aqueles cujas casas estiverem marcadas com o sinal de sangue (12:23). O termo hebraico Pesach, traduzido para nossa língua como Páscoa, significa, literalmente, “passar sobre”, no sentido de “saltar”. O sangue do cordeiro faz o anjo do julgamento poupar aqueles que reivindicam sua proteção.

        A Páscoa e a comemoração subseqüente, a Festa dos Pães Asmos, deveriam durar uma semana e serem observadas todos os anos a fim de lembrar as gerações futuras de israelitas do que Deus fez por eles no Egito (12: 14, 24- 27). Essas festam prefiguram a Ceia do Senhor, na qual Jesus se torna o novo elemento central da Páscoa (Mt. 26: 17; 1 Co 11: 23-33).

   Enquanto os israelitas fazem a refeição da Páscoa, o Senhor mata todos os primogênitos do sexo masculino das casas em que não há o sinal de sangue. A amplitude da tragédia é aterradora: Fez-se grande clamor no Egito, pois não havia casa em que não houvesse morto (12: 29-30). Nem mesmo a casa de Faraó escapa do anjo da morte. 

Deus desfere o  golpe final no rei do Egito tirando dele seu herdeiro.

O êxodo (12: 31-42)

     Nessa mesma noite Faraó mandou chamar Moisés e Arão e manda que saiam com os israelitas e seus rebanhos  (12: 31- 32a). Sua ordem é para saírem imediatamente, por conta das calamidades que trouxeram sobre a terra.

     Outros egípcios também tinham pressa em despedir os israelitas, apressando-se em lançá-los fora da terra (12:33). Deus não mentiu quando disse que, Faraó os deixaria ir, os “expulsará totalmente” (11:1). Desta fez, Faraó não impõe nenhuma condição; antes, pede a Moisés a benção do Senhor (12:32b).

     Eles ajuntam todos os seus pertences apressadamente, inclusive a massa não fermentada do pão ainda dentro das amassadeiras (12:34). Então, seguindo a orientação de acordo com 11:2, pedem aos egípcios objetos de prata, e objetos de ouro, e roupas (12:35). Os bens que os egípcios lhes deram de bom grado representam na verdade uma compensação parcial pelos anos de exploração (12:36).
 
      Quando finalmente deixam o Egito, os israelitas devem ter pensado estar vivendo um sonho. Partiram de Ramessés, cidade que haviam construído com as próprias mãos (1:11), em direção a Sucote.

     Formavam um povo numeroso, se acrescentarmos mulheres e crianças aos seiscentos mil homens, (12:37), é provável que pelo menos dois milhões de pessoas tenham deixado aquela terra.

      O tempo que os israelitas passaram no Egito (12:40-41)  serve para nos mostrar que todos esses acontecimentos dramáticos foram o cumprimento da promessa feita por Deus a Abraão: Sabe, com certeza, que a tua posteridade será afligida por quatrocentos anos. Mas também eu julgarei a quem têm de sujeitar-se; e depois sairão com grandes riquezas (Gn. 15: 13-15).

Desafios da liderança

Para deixar bem claro o desafio que estava diante de Moisés, precisamos avançar um pouco a Números 11: 1 – 35. Olhando para esse texto vamos perceber que tipo de gente Moisés estava liderando e as ações e reações dele.

       Os textos bíblicos são inesgotáveis; são fonte para refletir sobre a vida. Mesmo que não possam ser explorados de um modo direto para responder todas as nossas perguntas atuais, uma vez que pertencem, originalmente, a um outro povo e a seu contexto histórico-cultural, eles estabelecem modelos de fé e de comportamento que se revelam enriquecedores diante dos desafios desse nosso tempo.

Em seu caminho rumo à “terra prometida”, os que foram libertos da escravidão do Egito começam a resmungar. Dessa vez por pessoal que, estava no meio deles que talvez que se aproveitaram da saída, mas não são israelitas (4a) eles estão com um forte desejo, a comida dos egípcios (4b).
       Esse movimento de murmuração começa com esse pequeno grupo e logo toma conta de todo o povo (34b). A ênfase do texto em seu decorrer, não insiste na questão da origem da murmuração num determinado grupo, que está se movimentando para dividir o povo de Israel, mas indica outra dificuldade: desejos e insatisfações. As murmurações dessa gente contagiam rapidamente, ou seja, como já disse anteriormente toma a comunidade inteira. As queixas seriam legitimas se houvesse falta de alimento. No caso ali, é a falta de variedades que faz os filhos de Israel, ou melhor, cada família, chorarem na entrada de sua tenda (4c, 10a).

        O desespero é acompanhado por uma memória do passado que, em grande parte, já alterou as experiências históricas. Em sua falta os instigadores do “movimento de murmuração” lembram os alimentos gratuitos e variados no Egito: peixes, pepinos, melancias, alho-porro, cebolas e alhos (5a). Com certeza, a lista dos seis alimentos combina com o ambiente egípcio: Ex. 7:21 e Is 19: 8 fazem alusão aos peixes no rio Nilo; 11: 10 lembra o Egito como uma horta irrigada; pinturas em paredes e relevos documentam a existência das diversas hortaliças. A grande questão é a afirmação de que isso teria estado, gratuitamente, à disposição dos hebreus.

       As circunstâncias enfrentadas por eles no Egito eram bem diferentes: com brutalidade, os egípcios fizeram os filhos de Israel servirem (Ex 1:13), a fim de oprimí-los com suas cargas (Ex 1:11; 6:6,7), tornando-lhes amarga a vida através de dura servidão (Ex 1:14; 6:9).

      A razão da murmuração encontra-se, pelo que o contexto afirma em Nm 11, na simplicidade do alimento: Apenas o maná está aos nossos olhos (6b).
O líder solitário – Moisés ouve o povo chorando (10a). Antes, porém de falar a respeito da reação do líder, a texto afirma que: a ira de Deus se inflamou muito(10b).

      O texto volta a figura de Moisés. Em sua longa fala (11b – 15d), o líder apresenta um pensamento duplo. De um lado, sente-se encarregado por Deus de sua tarefa, quando afirma que Deus teria colocado a carga do povo sobre ele (11c). Com uma argumentação firme, narra como percebeu a ordem de Deus, apresentando as palavras deste último como parte de seu discurso: Carrega-o (o povo) em teu como colo como o amo carrega o lactente (12d). Por outro lado, Moisés enfrenta a exigência do povo, expondo-a, novamente, como fala diretamente no meio de seu discurso: Dá-nos carne, para que comamos (13c).  Moisés encontra-se no meio de dois imperativos, entre a ordem recebida da parte de Deus e a ordem recebida por parte do povo. Inicialmente, sua reação e marcada por uma série de perguntas.


       Se você estiver atento à leitura vai contar cinco perguntas diretas, todas direcionadas a Deus: Por que fizeste o mal a teu servo?(11b); Porque não achei graça em teus olhos? (11c); Será que eu concebi todo este povo?(12a); Ou (será que) eu o dei à luz?(12b); De onde sairá para mim carne, para dar a todo este povo?(13a).

      As perguntas expressam bem o dilema de Moisés: aos seus olhos, (tudo isso era) mau (10c). Em especial, o líder “vê sua solidão na liderança como uma condenação dada por de Deus”. Dessa forma, está disposto a “jogar a toalha”: Não consigo (mais) carregar todo este povo sozinho, porque (é) pesado demais para mim (14).

     O discurso de Moisés revela um líder visivelmente preocupado consigo mesmo.

     O uso repetido do verbo na primeira pessoa do singular (11c, 12a, 14a, 15c) deixa isso muito claro. Além do mais, apesar de Moisés mencionar quatro vezes todo esse povo (11 -14) não dialoga com a comunidade sobre a exigência dela de comer carne. Apenas se lamenta, diante de Deus, que o povo se tornou uma carga demasiadamente pesada (11 -14), que ele não consegue carregar mais.

      O conflito chegou a um impasse: o povo chora para Moisés (13) e Moisés está disposto a desistir de sua tarefa de liderar a comunidade, uma vez que ele não sabe de onde poderia tirar carne para dar a todo este povo (13). Se o projeto Êxodo tem que dar certo, então só pode dar certo a partir da orientação e ajuda de Deus.

       Deus desenvolve com Moisés o principio da liderança compartilhada. Moisés recebe a seguinte ordem de Deus: “Reúna para mim setenta homens dos anciãos de Israel, dos quais tu sabes que eles superintendentes do povo; e os trará perante a tenda da congregação, para que assistam ali contigo”. (16)

      O texto de Números 11: 4-35 não favorece apenas uma simples divisão administrativa de tarefas, como Ex 18: 13-26, em que Moisés escolhe homens capazes para colocá-los chefes (juízes) sobre o povo (Ex 18:25). Muito mais, prevê-se uma partilha de liderança pela circunstância de um grupo ser reunido no mesmo espírito profético. Com Moisés, esse grupo carregará a carga do povo até a terra prometida (17), favorecendo o projeto da libertação e opondo-se ao pessoal reunido por desejos ansiosos (4)

    Apesar dos desafios de liderar um bando de escravos e torná-los uma nação, Moisés viveu suas crises e lutas, mas a sua relação de intimidade e de dependência de Deus apontaram os caminhos para conduzir o povo de Deus para fora de Canaã e chegar até o ponto em que Deus queria.